janeiro 01, 2011

- Vinho das Coisas (Poesia)

(Anos 60/90)


 
 





BAC

Chamava-se Bac.
Era luz sem chama.
Rio sem leito.

Tinha as mãos cheias de espera
e braços cheios de ausência.
Era uma semente pequena
sem o abraço da terra.

Ouvia-me sem que eu falasse
e respondia-me respostas
de perguntas que não ousaria.

Era uma criança correndo
Pelo simples prazer autêntico
De mover as pernas velozmente.

Tinha olhos translúcidos e plenos
como oceanos represados.
Tinha olhos revoltados.

Seu corpo era livre,
sua vida solta
como risada de criança.

Abraçava-me, sempre, levemente.
Sem palavras.
Então eu sufocava
tocado por uma súbita sensibilidade
que de seu abraço emanava.

Eu o amava.
Eu amava Bac.

..........................................................

Bac viajou um dia
sem me dizer adeus.
Eu, que sempre imaginara
como seria seu adeus,
o adeus de Bac,
senti um frio profundo
e vontade de esquecer.

Comecei então a escrever cartas
que não sabia para onde enviar.
Mas escrevia assim mesmo.
Eu tinha que dizer a Bac
tantas coisas que esquecera.

E tantas cartas escrevi,
tão ternas e sinceras,
que comecei a crer
fazê-lo por mim,
que escrevia por prazer.

......................................................

Um dia, tornei a encontrar Bac.
Ele não me viu, distraido como sempre.
Cruzamo-nos pela cidade,
rápida, quase furtivamente.

Foi então que percebi
que aquilo tudo que escrevera,
tantas folhas, tantas linhas,
era para Bac, para encontrá-lo.

Reli cada carta, cada frase.
Devagar e com o afeto das relembranças.
E naquilo tudo que escrevera,
estava limpo, estava dito,
claro como o céu daquele dia,
o adeus de Bac.

........................................................


Quando o manto frio da boca futura
se tornar em lábios conhecidos,

quando as mãos despirem a esperança
como tirassem luvas para acenar à vida,

quando os braços estiverem plenos de presenças
e Bac não seja mais necessário,

nesse dia, Bac voltará.


Casa na Montanha


Toda obra de uma vida, por mais medíocre e sem brilho,
trata de uma obra inacabada: o pai morre, deixa o filho.
Assim vão estes meus versos, folhas bobas ao vento,
páginas sempre viradas. A cada tempo, um movimento.

Não se pretendem mais que isto. Quietos ali na gaveta
fazem, moucos, o registro da antiga ambição de profeta.
Pau nascido torto e pouco, abandonado louco místico,
quanto mais eu mudo, tanto mais parecido comigo fico.

Da pureza espontânea, quase burra em sua coragem,
criei a filtragem instantânea: fica a polpa, côo a bobagem.
O olhar de fora vê um simples teto impermeável, careca.
Acha paz, porém, quem entra direto: tem lareira e biblioteca.

No conforto só do meu canto, ando a história em linha reta.
Demônio, talvez santo, amoroso ou seco, no fundo poeta.
À falta de talento nesse eito, completo de gente com  sobra
dessa luz, dessa cor, desse efeito. Em mutirão, toco a obra.

A maturidade reconhece a utopia, aquele filho nú e parco
vestido de beleza e nostalgia, à frente um horizonte vasto.
Se acarinha então, pungente, a tal memória inacabável.
Não, não há o que lamente: há meu lar, tranquilo e confortável.


Circo

O instante acabou.
Sobre a noite, o silêncio
percorre a brisa úmida,
a via pública.

Toda beleza partiu,
inexorável.
Fica a tristeza dos que ficam.
Vão outros, ilusões vãs.
O instante acabou.

Assim é o momento.
Acontece pleno, intemporal,
penetra a alma, percorre, finda.
Restamos, enfim, esgotados
por um brilho de dedicação total.

Um vulcão surge no mar,
sacode e freme incadescente
para, pacificado em seguida,
ser apenas uma ilha de lembrança
na massa atlântica da realidade.

Voltamos a ser profissionais.
Reassumimos a postura convencional.
Mais uma vez, a verdade:
no circo da vida,
ainda não há lição de eternidade.


Confissão

Jogado no mundo,
caído de pé,
eu ando.
Sou vagabundo
até não sei quando,
casa não tenho nem de sapé.
Porém vagabundo,
até não sei quando,
eu ando.

Eu sou vagabundo
e ando cansado.
Cansado de tudo:
cansado de Deus,
cansado do homem,
cansado do mundo.
Cansado até dos beijos teus.

Durmo na calçada,
minha cama de granito:
dura, áspera, fria, gelada.
Fica perto da estação,
do trem ouço o apito.
Quando de lá vem um caminhão
e seu farol bate em meu rosto,
não ilumina nada,
apenas desgosto.

Eu, ambulante remendo,
um dos milhares pedintes do Brasil,
deste Brasil imenso, eu penso...
Será que não há um gás,
um fluido quiçá,
alguma coisa qualquer
para encher meu vazio?
De um dos milhares pedintes
deste imenso Brasil?

Já não sinto mais nada.
Sou pedra talhada num quarto escuro:
defeituosa e aleijada.
Uma estátua esculpida com calma,
porém aleijada e sem alma.

E quem é o culpado de tudo?
Da minha cama de granito,
do meu cansaço, do meu vazio?
Será o Brasil?
Será o Brasil o culpado
deste pobre mendigo coitado?

Não sei... como deveria eu agir?
Revoltar-me, talvez...
Sim, seria até bom revoltar-me,
mas contra quem? Contra Deus
ou alguma outra coisa do além?
Ou contra o governo?
Sim! O governo, ele é o culpado,
não meu Deus.
Por ele eu carrego este fardo,
por ele, o governo do teu país!

Não, não, não...
Não é o governo o culpado.
Nem o meu Deus.
Eu sei quem é...
sou eu.


Dia Seguinte

Um gosto de dia seguinte surgiu na minha vida,
entrou pela porta e ficou sentado comigo, junto.
Pedimos bebidas, petiscos, beliscos, contamos piadas
e ouvimos as músicas mais antigas de saudades.

Fumamos demais, bebemos com excesso.
Acabamos emocionados e choramos
enquanto relebrávamos cada hora de antigamente
com uma nostalgia que nossos avós não conheceram.

Flutuamos nas cinzas dos nossos cigarros, espalhadas,
perdemo-nos na nebulosa da sala destes dias
com uma sensação melancólica de história acabada.
Ficamos imundos com a fuligem da nossa auto-piedade.

Quando olhamos em torno, espantamo-nos.
Só havia solidão em torno, mais nada.
A porta estava trancada, as janelas pregadas
E nossas faces, apáticas, olhavam-se como ruinas esquecidas.

Chamamos isto de abandono e nos ajeitamos na poltrona
a espera de que alguém viesse, nos violentasse.
Alguém que lograsse romper a escuridão desta jaula
enquanto gemíamos na garganta as mesmas antigas canções.

Cercados de medo, barricados nos nossos preconceitos,
sentados sobre os remendos das mobílias de nossos pais,
ficamos olhando as paredes e arrastando os pés no chão.
Como doentes de asilo, esperando chegar o dia seguinte.



Meu e Eu

Tracei as linhas
Eu as segui
Reconheci belezas
Eu as cantei
Pensei disparates
Eu os cometi
Amei as mulheres
Eu as chorei
Lavei as mãos
Eu as sujei
Aspirei ser só
Eu o fui
Alegrei as crianças
Eu as beijei
Conheci meu mundo
Eu o naveguei
Trouxe os amigos
Eu os abracei
Desencontrei-me
Eu me encontrei
Criei a paisagem
Eu a descrevi
Sonhei meus sonhos
Eu os realizei
Descobri a sorte
Eu a inventei
Tive um Deus
Eu o abandonei
Fui aos horrores
Eu retornei
Enterrei-me menino
Eu permaneci
Toquei a verdade
Eu a escrevi
Construí a distância
Eu a percorri
Ganhei a vida
Eu a saudei
Segui as linhas
Eu, hoje, descobri que são retas.



Muito Além das Coisas

Vim daqui e dali,
vim das entranhas.
Fundi-me na explosão exata
do instante de amor.

Nasci no momento da noite.
Cresci nas bocas caladas,
nos seios pudentes,
nos corpos vendidos.

Mergulhando no céu,
penetrando o húmus da terra,
volatilizado na esfera do mundo,
no profundo mais âmago
do muito além das coisas,
busquei uma razão.

Uma razão no sentir,
no andar, no olhar.
Uma razão na morte,
na vida, no caminho.

De sul a norte
um ponto qualquer:
um segundo, um beijo, um lume.
Procurei sentido, direção,
qualquer marco
no muito além das coisas
produzindo uma razão.
A minha razão.

Confundi-me em coragem,
fuga, medo, tradição.
Abracei o acaso,
afaguei a solidão.

Todavia, muito além,
esquecendo faces e regras,
tempo e conceitos,
bem depois da partida,
imensamente longe da chegada,
sem mérito nem meta,
sem começo nem fim,
sem discordância,
sem esboço,
fiz-me de guerras perdidas,
edifiquei-me em velhas feridas.

Cicatrizei-me.
Sem discrepância,
sem companhia.
Comigo.

Penso, espero.
Ninguém sabe,
mas lá adiante,
bem longe,
no muito além das coisas,
encontrei minha razão.

Um segundo, um beijo, um lume.


Mulher Nua


Uma mulher nua me contempla.

Ela é seria, profunda.
Interroga-me, a mulher nua
e não sei o quê me pergunta ela.

Sua nudez é um desafio.
Seus seios parecem mostrar-se
como um convite.
Entretanto, mãos às costas,
a mulher nua a nada convida.

Olha-me como quem aguarda.
Talvez descubra nela
o espanto da sua espera.
Quantos anos passou, mulher nua,
a me contemplar dessa forma?

Sinto a força do mistério
que de si emana.
É inteira uma descoberta,
um mar de beleza,
uma praia deserta.

Suave, silente, espera.
Deixa-me desprevenido, inseguro,
reticente, incerto.
Que vou lhe dar eu?
Não sei o quê de mim pretende.

Provoca-me o desejo de tocar.
Quem sabe sua carne inerte
Tenha a vibração que não sei,
Como uma vaga que se vê
sem sentir a força que a move.

Mulher nua, seu nome é consciência?
É divina ou maldita?
Percebo que é verdadeira e fundamental.
Será?... seu silêncio me dá medo.

Se você ao menos sorrisse,
se ao menos abrisse os braços
ou as pernas!
Ou os olhos, esses olhos fechasse
e não mais me contemplasse.

Porém, fito seu semblante e nada.
Estou diante de si e estamos sozinhos.
Eu, olhando, pergunto.
Você me olhando...

Súbito, me vem à memória a frase:
decifro-lhe o enigma ou me devora.
Sinto o peito preso à sua companhia real.
Atado por cordéis invisíveis,
impossível deixar de encontrá-la.

Simples, despida e permanente,
você é tudo e é transcendental.
Passar por você ou aceitá-la.
Este o desafio.
Em ambas a mesma aparente situação,
a mesma inegável realidade.

Mulher nua, você é paz.
Em mim te reconheço:
você, meu começo,
meu caminho de homem,
meu destino, meu bem.
Mulher nua, você, sempre, jamais.

Contudo, nada foi tão diverso,
nem é, nem será tão radicalmente diferente,
como passar por você ou aceitá-la.
Meiga e firme, determinada e doce.
Mulher nua. Parte de mim perdida,
minha parte encontrada.

Há várias formas de amar.


Naufrágio

Água, água...
muita água.
O mar sem ventos,
sem tempestades.
Imensamente líquido.

Ao longe, um barco.
Pequenino, sem velas.
Um ponto seco,
sedento.
Mais sedento, um homem.
E água, muita água.

O mar, o barco
e o homem.
E a sede,
sem quase nada,
Sem nada.

Horizontes eternos,
nuvens, o céu,
imensamente azul.
Tudo estático,
ondas apenas
em movimento.

O mar absorve o barco.
O barco e o homem.
Esperança?

Só resta água
e o imenso nada.
O céu, o vento.
Azul e branco.
E água, água...
muita água.


Noite Semeada

Plantados nas ruas,
postes, como lírios,
seguem carreiras brotadas do asfalto.
Postes, como lírios de luz,
neonizando as ruas marcadas nos leitos.
A claridade semeada entre a cidade
deixa medos à mostra e abre a hora.
Espetáculo adormecido. Final de ato.
Pausa, penumbra, intervalo.

Por que se haveria de plantar postes?
Por que florir pétalas luminosas pela cidade?
Quem haveria de abrir, com unhas, a fenda
e, no asfalto, enterrar raízes de fios?
Alguém o fez.
Para iluminar os passos de quem?
Os despertos não ficam às ruas.
O restante dorme.

Sob a copa das árvores espalhadas
sombras cambaleantes se projetam na calçada.
Sob elas, estendido em seu lar,
um último bêbado abandona a madrugada.
Para ele, melhor seria não haver plantação.
No horizonte da próxima esquina,
parado como se não vivesse,
um carro morcego da polícia
assombra a perspectiva da sua morada.

Não há um gemido, um grito, uma palavra.
O cenário iluminado exige platéia,
mas não há atores, não há trama, onde enredo?
Somente o palco pronto de concreto iluminado
e a lembrança do que se sabe, do que se viu.
Luzes acesas, como esquecidas,
esperam sempre alguém.
Estas ruas, na noite semeada, levam a quem?

A noite foi semeada, isto é fato.
Fato é que ninguém saiu às ruas para colher.
E o semáforo em movimento controla, certamente,
a velocidade do tempo.


O Caderno de Capa Dura


Sonhei com um caderno de capa dura
e perdi o significado das coisas.

O que é um beijo para além de si,
como um horizonte?
Os em-si são certezas porque são reais
e nada pedem,
a não ser a própria verdade de serem.
Mas, mesmo assim, existem?
Ou, se existem, são reais mesmo assim?
Verdadeiros e únicos serão momentos como este
ou serão outros, que não percebo?
Ontem, no lago, havia um lago porque o vi.
E hoje, que estou aqui?

Não procuro respostas, digo coisas.
Preocupa-me o caderno de capa dura com que sonhei.
Era volumoso e contivesse, talvez, o que não percebo.
Nas mãos, não pesava, porém causava impressão.
Provavelmente contivesse o que não percebo
pois o que percebo está comigo, escrevo.
E para além disso, o que há?

A observação das coisas exige isenção sobre elas
para mim, que observo.
E se as amo? Poderei nunca observá-las
e, contrariamente, participar delas sem perceber?
A consciência é uma observância fria.
Por isso sou tão inconsciente.

O caderno de capa dura conteria essas inconsciências
Como gotas de suor na fronte de quem trabalhou no campo.
O suor escorreu pelo corpo,
ensopou as botas, as calças e as camisas inversamente.
Mas eu não trabalho no campo.
Eu não trabalho, apenas pasmado olho.
De que serve escrever o que percebo
e não perceber o que não percebo?
O real talvez seja o caderno de capa dura com que sonhei
e que não tem existência.


Poder

Não quero ter poder,
não quero responder.
Só minha vida devida,
minha, clara, estendida.

Não ter ou haver,
fazer sem ser por dever.
Estar aqui, lá, na lida,
com toda força desabrida.

Só me fiz de querer.
Só ganhei por perder.
Com prazer ou doída,
foi a história escolhida.

Um marchar sem volver,
cada dia sem morrer,
cada hora sentida,
cada face, conhecida.

Não, não há que resolver.
Não quero ter poder.
Emocionada eterna partida:
tudo ou nada, jogo a vida.

Sinonímia

Eu sou o concebido do nada
para as caminhadas do tempo
e fixação etérea no espaço.

Venho do passado para viver somente.
Venho do futuro para aguardá-lo em transe.
Venho mundo, à espera dos homens.

Sou o presente conjugado e contenho,
desde sempre, a terra que serei.
Eu sou a sementeira plantada:
Sou o fruto e sou a raiz.

Eu construo, mas sou o ódio.
Eu destruo, mas sou a paz.
Convivo com a morte e a amo,
mas sou também a vida, a ela pertenço.

Eu sou todos os anônimos.
Combati ao lado dos césares.
Naveguei ao lado dos descobridores.
Eu ví as planícies nevadas,
ví os igarapés em estiagem,
ví Constantinopla render-se.

Senti o açoite dos açoitados.
Amei os bons, amei os maus.
Cantei catástofres como benção
e zombei de Cristo crucificado.

Possui, nos becos, as prostitutas,
nas casas as donzelas,
plebéias em todos os lugares.
Partilhei o leito das rainhas
assim como chorei, e muito,
a morte dos meus reis.

Contemplei maravilhado a invenção da pólvora
e, maravilhado ainda, ví Hiroshima destruida.
Eu sou o íntimo de Netuno e o afogado em seus mares.
Caminhei com Moisés até a terra prometida,
ouvi a voz de Deus e ela era minha.

Eu vivi todas as vidas, chorei todas as mortes.
Eu serei o general triunfante da próxima batalha,
assim como, envergonhado, fui o desertor da última.
Sou um ponto fora do espaço, um dia fora do tempo.
Eu sou o mortal eterno, a vida que principia.
Sou profeta sem profecia, sou a boa e a má noticia.
Eu sou o Deus que todos temem:
sou a sordidez e sou a poesia.

Eu sou, enfim, simplesmente, senhores,
aquilo que convencionaram chamar de Homem.


Som Noturno

Perde-se na noite um ruido agoniado.
Talvez o êxtase da morte
pronunciado numa só contorção,
depois imobilizada à espera da resposta.

E a resposta é a noite.
A noite em si, a noite dos tempos:
Negra, só, aterrorizante.

Só...
Um eco que se esvai na noite,
reboa nos negrumes
e se ilumina somente no som.

Metalicamente: só...


Tábua de Mesa

O silêncio da refeição,
na tábua da mesa, aguarda apetite.
O gesto sustado na ausência de reflexos,
como interrogasse, se mantém absorto.

Olhos estacionados dentro dos limites da visão nítida,
se abastecem de vapor.
Olhos abertos como céu de inverno,
frios e agasalhados,
nesta sensação íntima de alimentação.

Como peixes flutuando
no aquário de um corpo pequeno demais,
as fibras nervosas estremecem
e buscam oceanos nos copos,
enquanto as vísceras sonham em tic-tac.

Não há perspectivas na caixa do meu ser.
Revejo sonhos incapazes de sonharem realidade.
Não há ilusões. Revejo sonhos incapazes de liberdade.
Não há palavras.

Há, apenas, o sentimento posto na tábua da mesa,
procurando preencher a dieta sem luxo de fome.
O pensamento sem apetite.


Templo do Homem

Mil olhos me contemplam
no templo perdido do homem só.
Mil espelhos refletem.

Na solidão dos gestos
o inútil sacrifício dos idealistas.
Na demência das palavras
estéreis mortes sem sentido,
louco assassinato dos espíritos.

Na incompreensão de todos
a simples fuga dos covardes,
a trsite coragem dos loucos,
a sórdida prostituição dos inocentes.

No passado, a vida dos mortos.
No presente, a angústia dos vivos.
No futuro... mil olhos contemplam
o tempo perdido do homem só.

Mil espelhos refletem
e mil bocas perguntam:
por que a luta dos tolos?
Por que tanto por tão pouco?
Por que tão desigual a recompensa?

Olhos espelhos já não refletem.
Os homens já não refletem.
Entretanto, em todos os templos,
mil olhos contemplam
o tempo do homem só.


Um Tempo

Meus olhos de água,
úmidos, loucos, carentes,
querem ver,
querem.
São sós, são sóis,
sistemas, pirâmides de um tempo
em que havia mais que abismo
na treva.

Areias, pó, terra.
Criação sem medo do que há
acima de tudo e, acima de tudo,
tudo que não quer ser,
que tem medo.

Sonho e paz, angústia e solidão.
Árido sonho, paz inútil.
Requeiro luz formalmente,
oficialmente me prostro
desesperadamente.

Noites sem tempo passam,
correm, escorrem, se perdem.
Muitas cores, um abraço vazio.
Muitas cores, a fome.
Muitas cores, um grito contido no infinito
da sua origem.

A antologia do nosso despir muitas vezes.
Nus, uma explosão tão fácil, tão simples
...tão tolo.
Engano-me, desespero-me, angustio-me
e rio-me, rio-me,
rio-me.


Vinho das Coisas

Estou sentado e olho a porta.
Entorno a confusão, minha e da porta, na folha.
O vinho que bebi foram fatos e coisas
não fermentados, não destilados, crús.

Assim, meu fígado dói como a minha alma.
Mas, para o fígado há toda a farmácia da esquina,
científica e anestesiante. E para a alma?

Estou sentado e olho a porta.
Ela está mais para o lado de mim e está fechada.
As paredes estão ligadas a ela, indissoluvelmente.
Mesmo que removessem as paredes,
as portas continuariam fechadas:
não só a porta que olho, todas as portas.
E que me importa se removessem as paredes
se é a porta, aquela única porta, que me interessa.
Contudo, se olho as paredes em redor
as percebo impossivelmente removíveis.
Ficam, as paredes e a porta, indissoluvelmente trancadas.
Estou sentado e olho a solidão.

Nem eu sei o que há para além das portas e paredes
porque as vejo de dentro, sentado e intumescido.
É aqui que se dá tudo que sei, tudo que faço.
Tudo que posso está aqui e aquém desses limites de mim
mas eu mesmo, eu não estou aqui.

Estou sentado e continuo sentado.
Sinto todas as pessoas latentes em meu perceber
e as pessoas em volta, irreais como eu mesmo em mim.
Em mim, há o despertar contínuo de latências,
gestante de quimeras e utopias e inutilidades assim.
Quem serei eu em mim, reflexivamente?
Serei sempre outros, fora das paredes e das portas?
Serei sempre em algum lugar que não este,
como o outro lado não é nunca este lado?

As coisas e os fatos dinâmicos existem para além da porta.
Somente lá é que tudo acontece e eu mesmo não estou lá
mas onde nada existe para mim. Em mim não há.     ?

Emborquei demais a taça dos fatos e das coisas
enquanto fiquei sentado olhando a porta.
Resulta então esta ressaca psicofísica que me transforma:
mera argamassa, simples montagem, articulação única
e específica de fatos e coisas que jamais sucederam.
Mas nada disso importa realmente, pois que em mim
não sou eu que há e sim outros, ao abrigo tedioso das horas,
recolhidos, olhando a fusão do imponderável
no sentido único da vida,
um intervalo entre duas semi-eternidades.




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* Este volume não será atualizado com novas postagens.
........................................................................
* Obrigado, volte sempre.


4 comentários:

Pandora disse...

Adoro este gurizinho que fica passeando entre o homem e a criança, as vezes tão cheio de certezas e outras buscando antigas dúvidas...onde estão elas, Alu?

Rose Я disse...

ESTAÇÃO POESIA

Atenção passageiros,
próxima estação: Poesia.
Lembranças que sufocam,
suplicam pela correnteza de ar
cortando as narinas da engenharia civil.

Poesia na estação do metrô
trens iam e vinham.
Amantes na estação do metrô
fotos vêm e vão.
Saudades da estação do metrô.
Estou na plataforma errada.

Rose Я . disse...

É assim... como se eu te conhecesse a cada post,a cada poema, a cada texto. Talvez conheça dentro de mim, é estranho isso... mas me sinto tão em casa aqui que junto com isto tudo, tenho saudades de um Aluízio que mora em mim.

___________________________________

Não mergulho em ti.
Te amo simplesmente.
Despido, sem amarras,
Nú, liberto de qualquer tara.
Deixa-me lúcido, minha hora.
Sonha em mim o que sente,
Deixa aqui acontecer. Deixa.
Mergulho em ti.

(Aluízio Casali)

Soninha disse...

Passei por aqui... estava com sede, ou com fome... não sei... Só sei que passei, e vou-me satisfeita! Amo-te...